Nesta segunda-feira (16/02), às 23 horas, o Curta! exibe o
documentário “Chiquinha Gonzaga - Música Substantivo Feminino” sobre a
instrumentista, maestrina e compositora pioneira entre as mulheres na música
brasileira. Para contar sua história, o filme convida historiadoras, filósofas,
escritoras, musicistas e outras especialistas, todas mulheres. As canções de
Chiquinha são apresentadas pelo Grupo Chora - Mulheres na Roda.
Da parte de sua mãe, Chiquinha era neta de uma escravizada
alforriada, enquanto seu pai era um militar de alta patente do Exército
Imperial Brasileiro. Diferente de muitas mulheres de seu tempo, teve acesso ao
letramento e à erudição das elites da época. Ainda jovem, foi presenteada com
um piano - instrumento frequentemente destinado às moças, por não ser possível
carregá-lo para apresentações fora do ambiente doméstico.
Ainda jovem, casou-se com um comandante da Marinha Mercante.
O marido esperava que o casamento fosse afastá-la de sua dedicação à música, o
que não aconteceu. O casal viveu uma relação conturbada, até que Chiquinha
deixa o marido e é renegada por sua família, que a impede de criar os três
filhos nascidos da relação.
Apesar das dificuldades diante dessa separação forçada,
Chiquinha se torna uma mulher livre. “Esse desejo de liberdade de Chiquinha
Gonzaga acompanha toda a vida dela. Ela se liberta do marido e vai se
libertando de todo tipo de grilhão”, conta Edinha Diniz, biógrafa da artista. O
momento era de ebulição social em uma sociedade que vivia diversas
transformações no fim do século XIX. Nascia uma efervescente vida noturna na
cidade e uma crescente demanda por profissionais da música - e Chiquinha
precisava encontrar formas de se sustentar financeiramente, além de dar aulas
de piano.
Passa, então, a circular pelos meios boêmios do Rio de Janeiro,
conhece pessoas diversas, se apresenta em casas noturnas, vende suas próprias
canções e passa a compor para peças de teatro. Convive também com
ex-escravizados e, com eles, aprende uma musicalidade bem diferente dos
clássicos europeus. Daí nasce a riqueza de sua obra, que reúne sua erudição com
o que era produzido na música popular da época, como polcas, maxixes e
marchas-rancho - inclusive a famosa Ó Abre Alas, a primeira canção carnavalesca
brasileira que, até hoje, é bastante entoada por blocos de carnaval e foliões.
No entanto, por vir de uma família com recursos, conseguia transitar também
entre a elite cultural e política carioca da época.
O documentário traz também o debate racial, baseado no fato
de que a historiografia oficial parece ter embranquecido Chiquinha e ignorado
suas raízes negras. “Ela tinha a experiência materna e a experiência da
escravidão muito próximas, e por isso sua negritude precisa ser reivindicada.
Quando ela se junta com outros intelectuais, com outros artistas, pensando a
questão da escravidão negra, isso também empretece seu pensamento. Quando ela
se aproxima dos lundus, das músicas das ruas, isso empretece sua musicalidade,
isso empretece Chiquinha”, analisa a socióloga Carolina Alves.
Além da luta abolicionista e por sua própria liberdade,
Chiquinha - já consagrada como artista - criou a primeira entidade de proteção
aos direitos autorais de compositores teatrais, a SBAT (Sociedade Brasileira de
Autores Teatrais), abrindo portas para que outras mulheres pudessem registrar
suas próprias obras musicais.
Chiquinha Gonzaga - Música Substantivo Feminino é uma
produção da Cinegroup viabilizada pelo Curta! através do Fundo Setorial do
Audiovisual (FSA).