O episódio “Cidade Selvagem, Fauna Urbana”, do programa
Caminhos da Reportagem, vai ao ar nesta segunda-feira (07/09), às 23h30, na TV
Brasil, com uma análise sobre a vida silvestre que ainda resiste, adaptando-se
aos impactos da expansão urbana da cidade de São Paulo (SP). A atração da
emissora pública mostra algumas das iniciativas para recuperação e preservação
da fauna e flora nativas na maior metrópole da América Latina.
Apesar da prevalência já estabelecida da espécie humana ter
transformado profundamente a paisagem, a capital paulista ainda abriga vida
selvagem sob o asfalto e acima dos prédios, sendo que registros históricos e os
nomes próprios de alguns lugares mantêm viva a memória da fauna nativa. Os
povos originários davam nomes para as áreas usando os animais como referência:
MBoi Mirim significa cobra pequena (como a Dormideira, Dipsas mikanii); o Rio
Tamanduateí rememora o tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla); e o
Tatuapé, o caminho do tatu (Dasypus novemcinctus).
Caminhos da Reportagem mostra que essa relação ancestral com
a fauna é preservada na Terra Indígena Jaraguá, onde 45 famílias Guarani mantêm
relação sustentável com o território e forte vínculo espiritual com os animais.
Liderança tradicional da Tekoa Yvy Porã, Márcio Mendonça Boggarim, ou Guarani
Karaí Werá Mirim, em tupi-guarani, destaca a relevância das abelhas nativas sem
ferrão para a cultura local. "Todos os animais, para nós Guarani, são
considerados sagrados. O Guarani se fortalece mentalmente através dessas
espécies nativas, principalmente a Jataí [Melipona rufiventris]. A gente
utiliza a cera, a própolis e o mel para fazer batismo e curar pessoas
doentes", afirma.
Outro entrevistado é o ornitólogo Luís Fábio Silveira, diretor
do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (MZUSP), que comenta que a
região era marcada por uma transição geográfica singular. "Tinha essa
mescla de Mata Atlântica com campos naturais, tanto que a cidade, antes de
chamar São Paulo, se chamava São Paulo dos Campos de Piratininga”, informa.
A degradação histórica das matas também motivou iniciativas
privadas de restauração. No extremo sul da cidade, dentro da APA
Capivari-Monos, Jayme Roso reconstruiu, na década de 60, uma área desmatada que
deu origem à Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Sítio Curucutu.
"Quando eu cheguei aqui não tinha nada. Acredito que tenha plantado umas
650 mil mudas", ilustra. Sua filha e gestora da reserva, Ana Roso, explica
ainda que esse trabalho é feito hoje pelos próprios animais. "Meu pai
reflorestou no passado, mas depois a anta [Tapirus terrestris] fez o trabalho
dela: ela come frutos maiores e vai dispersando as sementes, ajudando a
reflorestar", contextualiza.
De acordo com o Inventário da Fauna Silvestre de São Paulo, o
município conta com 1.475 espécies de animais catalogadas, das quais 223 estão
ameaçadas de extinção. Para socorrer a fauna vitimada pelo tráfico e por
atropelamentos, choques elétricos e linhas de pipa com cerol, o Centro de
Manejo e Conservação de Animais Silvestres (Cemacas) opera em duas unidades:
uma no Parque do Ibirapuera e outra no Refúgio de Vida Silvestre
Anhanguera.
O médico veterinário Felipe Lucato, ouvido pela atração
jornalística, aponta a dimensão do trabalho realizado pela instituição. "O
número anual de animais que a gente recebe é em torno de 13 mil. Na alta
temporada, chegamos a receber até 2 mil animais por mês”, conta.
A preservação da fauna também ganha força com a participação
ativa da sociedade por meio da ciência cidadã. A fotógrafa e educadora Paula
Romano transforma registros de insetos em dados para pesquisadores na
plataforma Naturalist. Com mais de 24 mil postagens, ela já auxiliou na
descrição de espécies e no mapeamento de animais ameaçados de extinção. "Felizmente, agora a gente tem visto
muitos pesquisadores usando esse material. A minha autoestima é lapidada a
partir disso”, enfatiza.
A observação atenta do ambiente urbano pode, ainda, converter
cenas comuns em grandes manifestações artísticas. Ao registrar pássaros
pousados em fios elétricos na cidade de Santana do Livramento (RS), o repórter
fotográfico Paulo Pinto capturou uma imagem que chamou a atenção do diretor de
arte e músico Jarbas Agnelli. "Cinco fios é o mesmo número de linhas numa
partitura. Fui pro piano e interpretei aquilo", menciona. A composição e o
vídeo resultantes alcançaram milhões de visualizações.
Quinze anos depois, Jarbas e Paulo voltaram para Santana do
Livramento para fazer uma nova sinfonia. O projeto, que ficou conhecido como
Sinfonia da Energia e contou com outras sessenta fotografias vindas de diversos
lugares do mundo, foi feito em parceria com a Agência África Creative e com a
Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee). Neste
ano, a campanha conquistou o Leão de Ouro no Festival Internacional de
Criatividade de Cannes. “Qual não foi nossa surpresa ao verificar que os
pássaros já não estavam mais lá, porque o dono da casa que alimentava os
passarinhos já tinha ido embora também. E a mãe que indicou também já não
estava mais aqui. Então, diante de tudo isso, o que ficou de lição? Que nós
temos que aproveitar o momento”, reflete Paulo.